terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ser é tão grande que me transborda, e não tenho outra coisa além de ser.
E se sou, sou aquilo que basta, sem dizer. Numa plenitude de quem se vive o agora. E o agora é tudo que tenho. E é neste agora que sou toda o que sou.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Do despir



Dois ou três copos depois estava eu, nua defronte o espelho, refletindo toda a falta de caráter que presumia ter. Carregada desta presunção, uma ferida aberta demorava a cicatrizar, e doía. Era eu a responsável por tudo que me havia acontecido. Sempre fora.

Descobri-me perdida e confusa quanto qualquer alvo que a ponta de meu dedo indicara. E era assim, a cada nova descoberta comia de minha própria hipocrisia.
Os olhos, antes vermelhos, estavam sensíveis diante da Luz. Quis ficar por algumas horas. Fiquei dias - que viraram meses. Junto aos meus passos trôpegos, eu mirei. Eu fui.
A razão ansiava pelo fim do ciclo anual, mas o coração sabia. Aquela era a hora de sua morte. E dentre todas, a que mais sentia.

Nunca morri de modo tão vivo. Tão assistido! Diante de meus olhos caretas, eu morria.
À vista minha própria nudez, gritava meu corpo pelo instante. Do qual, bem sabes, nunca pediu arrego. Dilacerava o meu peito, pedinte da verdade.

Alguns corpos depois, estava eu, nua defronte o espelho, refletindo toda vontade de ser. Algo em mim aguardava. Coisa de tempo que cura: a coisa da alma que experimenta.
A física quântica me pegara, à medida que a ciência da paz se aproximava.

Como era difícil despir-se.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Traçados

Aproximei levemente as pontas dos dedos nos lábios, como que se quisesse pará-lo. Num súbito impulso, levantei a mão na intenção de captar as palavras - elas, que mal saiam de tal boca; elas, submersas em meus pensamentos. Num movimento de sucção, pressiono. Conquisto pedaços e eu própria me engasgo.
Em meia luz, observo atentamente suas curvas negras sobre este leito vermelho. Te leio e releio afim de decifrar-te - de decifrar-me. Ter mais de você é ter mais de mim.
Sugo de sua boca - que na verdade é senão a minha - cada ímpeto que tens atordoado. Instigo as possibilidades de nos fazer acontecer. As possibilidades sempre seguem o fluxo do desejo - disto eu sempre soube. Inebrio qualquer coisa assim, pelo simples desejo de escrever.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O epílogo do enlace.


Perfumei nossas fotografias e te fiz valer poesia. Com desvelo, uma a uma, beijei-as como se fosse nosso último contato. Fitei teu rosto por instante e em seus olhos pude ver um amor que nunca tive - dói demais ter de guardar estas lembranças.  

Sei que, amores assim, merecido de todo carinho, devem ser embalados nas mais bonitas caixas de presente, com um laço bem dado, para que não se percam com o tempo. Para que os ventos do futuro não oxidem, quando esta caixa se tornar uma caixa de passado. Espero ainda me perdoar por este pouco entendimento em química, por esta pouca habilidade com o vento, que desmancham com o tempo e amarelam os papéis de fino trato.

Falando em papéis, por horas fitei este papel em branco, do qual escrevo. Encarei-o como encarei aquela tua fotografia. Cerrei meus olhos e meu peito na medida em que fui percebendo como é difícil falar de ti. O como é difícil fazer com que desenhadas palavras - esta junção de letras e sílabas e suas sonoridades - possam obter algum sentido. Como é difícil me despedir de teus olhos, ainda que pelas fotografias - que beijo, e beijo e beijo com tanto carinho e agonia. Que fica o vazio em meus olhos refletidos no vazio desta folha em branco, neste fluxo de sentir contínuo, que me faz voltar e voltar e voltar nestas fotos, ainda que frias.

Enceno. Faço e refaço, protesto e protelo o momento em que darei o laço forte que envolve esta caixa. Este embrulho!
É amarela como pediu, a fita - tenho ainda sua voz falando sobre ela. Mas, assim como enlaçar, ela, a fita; a caneta contorna palavras em versos sem fim. Assim, na esperança de que as fotografias continuem a surgir por entre nossas fitas amarelas.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Condutor



Venho me carregando num tanto de doses homeopáticas e quase transbordo.
Arrisco um passo após o outro: passo estreito, caminho reto.
Corda bamba, caminho como quem caminha num beiral.
Me equilibro entre o que sou, fui e serei.

Venho por meio deste dar voz à um desabafo de pele entesada.
Feito de pó de estrada, água, uísque e mau humor
Balanço no berço do querer.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Baralho



Dissera à ele que o Sol brilhava quase que no mesmo compasso de seu coração.

Tinha duas cartas na manga. O décimo segundo Arcano Maior vinha em dança, vinha louco. E vinha um Sem Número.
Num trunfo trocado, vem com os pés para o alto. Vem com os pés pelas mãos.
Num instante, parado, fez-se imensidão.
Num girar em sua órbita, já não era sol. Era óbito: era noite, e era dia.

Eram anos, numa translação. Numa transmutação: de pequenas rotações.
De pirações impessoais. De giração. De gerações.

Fez-se massa, fez-se um todo.
De um povo emproado - uma gota que cai no mar.

Dissera à ele que o Sol brilhava, e que sua luz tem o exato compasso de seu coração.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A Hóstia Maior

Paira sobre minha cabeça
Teu todo feminino alento
Vens com teu brilho, clareza
Suavizar do peito o sofrimento

Reluz o fogo fomentador
Em minha eterna inaptidão de poeta
Arrisco versos, idílio meu
Fiz-me admirador, se fez profeta

Vens mulher, forte e suave
Afagar o desejo derradeiro
Vens com manto puro e limpo
Enxugar o pranto alheio


Diante da hóstia maior sublime
Vi resplandecer o teu olhar
Tens minha boca muda, humilde
Sei que não vens me enganar

Tens no sorriso formoso
Alegria de menina
Veio num gesto bondoso
Trazer boas novas à minha sina

Eu, de tão ébrio
Pecadora e toda crente
Vi meu futuro surgir
Sobre uma Lua sorridente.






quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Tentativa de Vôo nº

Arrumei tais bagagens que deveriam estar prontas há tempos.
Coloquei os sapatos. Fiquei defronte ao espelho.
Peguei minhas malas. Viajei para dentro.

domingo, 20 de novembro de 2011

Um Fora às Paredes

É possível observar nos olhos àquele mais experiente. Em seu passo preciso, sincero, despretencioso. Seu faro maduro. Orelhas atentas, ligeiras. Olhar sabido, fita-o de modo a te despir, à ensinar. E ensina.
- Vem das ruas, este maltrapilho!
Entre as paredes estão os gordos, os mimados, os infantis babados. Entre estas mesmas paredes, porém, latem. Latem feito covardes, com suas fuças entre as grades. Latem como quem pode. Late medíocre, o estúpido cão. Cão de rua não late!  
Estes mesmos estúpidos medíocres cães pulam, correm, brincam feito crianças. Feito tolos provam da imensidão do mundo. Até que chega a fome, o frio, o cansaço. - O que há de se fazer da vida?
Come a vulnerabilidade das ruas e caga seus instintos de proteção, o cachorro solto. 
O cachorro homem.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Papel Pardo

  

Não tenho tido complacência com toques pegajosos.
Mãos grudentas, sujas de mel frívolo de uma visão açucarada.
Covardemente, sutilmente, enganosamente: tenho cortado laços.
Laços, enfeites. Embrulhos, presentes. Passado e futuro.

Estava mais para Dalí. Não. Estava mais para Dadá.

Tenho tido eu, o cigarro e o que de mais fino restou, um vinho barato. Algumas citações de Caio em mente, embora no peito, Bukowski. Depois de algumas talvez e portanto, tomei a ousadia e o fiz.


Decidiu por tudo no papel. Da boca, fumaça.